Reinaldo: o Rei do punho erguido pela Democracia

Reinaldo de punho erguido pela Democracia

Em um tempo em que era mais conveniente se calar, um jogador ousou protestar contra a opressão. Algo raro no mundo da bola das frases clichês e de uma certa alienação social e política. Ainda mais em um Brasil dos anos de chumbo, no qual muitas vezes o falar já representa um ato de rebeldia. Mas não se tratava de uma figura qualquer. Era Reinaldo, o maior artilheiro da história do Atlético-MG, com 255 gols e um grandes atacantes da história do futebol brasileiro. 

O Rei, como era conhecido, não foi destemido apenas na grande área na hora de se livrar de seus marcadores. Suas proezas, ou melhor, os golaços se estendiam para o extracampo. Nos anos 70, em plena ditadura militar, decidiu se posicionar pedindo a volta da democracia. Para isso, usava o talento de seus pés e a coragem das mãos. “Erguer o punho era um gesto revolucionário. Usava o futebol como tribuna e sabia que os militares não podiam me agredir fisicamente porque seria um tiro no pé”, dizia ele, segundo o livro Futebol à Esquerda, de Quique Peinado . O gesto era inspirado nos Panteras Negras, grupo e Partido Político americano que combatia a violência policial contra os negros na década de 60, no  contexto do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Um dia, entretanto, o Rei teve medo. Foi na recepção à seleção que iria para a Copa de 1978, na vizinha Argentina, também sob o comando dos militares. Durante a cerimônia, ele foi agarrado pelos braços por um oficial e levado a uma sala. Lá, estava Ernesto Geisel, então presidente do país. “Filho, dedique-se a jogar futebol. Só isso. A política, você deixa para nós”, falou o general, em tom ríspido. “Sim, senhor”, respondeu o craque do Galo. 

 Reinaldo, entretanto, não se curvou. No Mundial, marcou o gol do empate de 1×1 contra a Suécia, e lá foi ele erguer o punho outra vez. Um gesto que custou caro.  Naquela seleção com forte influência do Exército e um Confederação Brasileira de Desportos presidida por um almirante, Heleno Nunes, Reinaldo estranhamente perdeu espaço. Após o empate de 0x0 contra a Espanha, não jogou mais um minuto sequer e assistiu de longe a Argentina comemorar seu primeiro título. 

Reinaldo, o Rei do Galo, em ação contra a Suécia na Copa de 1978
Reinaldo em ação contra os suecos na Copa de 1978

Quatro anos depois, mesmo em boa forma e tendo feito inclusive o gol da classificação nas eliminatórias, ficou de fora da lista de Telê Santana para a Copa de 1982. Não faltou quem sentisse sua ausência, inclusive seus antigos companheiros. Em setembro de 1981, a edição da revista Placar trazia entrevistas com Zico, Júnior, Sócrates, figurões daquela seleção. E eles eram taxativos quanto às virtudes de Reinaldo e a superioridade dele em relação aos concorrentes à vaga. 

A justificativa oficial era de que as sucessivas lesões tiraram o Rei da Copa. Para muitos, porém, aspectos fora das quatro linhas foram determinantes: os boatos sobre sua vida boêmia, orientação sexual e também política. “A partir dali (o 2º semestre de 1981), Telê passou a censurá-lo, ora pela amizade do jogador com homossexuais, ora por suas brigas com a namorada, ora por suas ligações com o Partido dos Trabalhadores”, publicava a Placar em janeiro de 1982. 

Com seus gestos e falas, Reinaldo não escondia que era de esquerda.Fazia isso em um tempo em que o mais conveniente – e seguro – era ser de direita. Mas a homossexualidade e a vida boêmia não eram realidade (só após o fim da carreira ele teria problemas com vício em cocaína). 

Nos boatos sobre sexualidade, pesava contra Reinaldo a amizade que ele mantinha com Tutti Maravilha, radialista famoso em Minas Gerais e homossexual assumido.”Transar com o Tutti, minha gente, seria o mesmo que cometer um incesto. Transar com o Tutti não pode. Transar com muitas mulheres também não. Não transar com nenhuma é, da mesma forma, perigoso. Se saio à noite com mulheres, sou boêmio. Se não saio, sou viado. Que fazer”, desabafou o Rei na mesma Placar de 1981.  

Amizade com um gay, excessos na vida noturna e o apreço pela democracia e a justiça social fizeram, para muitos, a tríade que distanciaram Reinaldo do Mundial de 1982. Era coisa demais para uma sociedade e futebol conservadores, que em grande parte das vezes se mistura e retroalimenta.  Ele não fez parte daquela inesquecível seleção que encheu os olhos do mundo nos gramados da Espanha, mas jamais deixou de ser protagonista, dentro e fora do campo. 

Até hoje ele é figura presente em campanhas por um futebol cada vez mais extracampo. Ano passado, na ação criada pelo Galo para o Dia da Consciência Negra, emprestou sua voz e sua fala na luta contra o racismo: “Eu sou isso, sou branco, sou pardo, sou negro. Sou brasileiro e atleticano”

Reinaldo não venceu uma Copa do Mundo, mas conseguiu algo muito maior. No país do futebol, é considerado por muitos, até hoje, um dos melhores da sua posição. No coração dos atleticanos, é simplesmente o Rei. Um gênio que sempre manteve os punhos e voz para o alto. 

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Maior artilheiro do Atlético-MG e um dos grandes craques do futebol brasileiro, Reinado ganhou o apelido de Rei no estado de Pelé. Genial dentro do campo, ele usou sua voz e talento pela Democracia. Pagou um preço caro, mas não deixou de lutar pelo que acredita.
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Extracampo