Peru x Hitler. A construção do mito dos Jogos Olímpicos de 1936

O futebol, especialmente na América do Sul, é um campo fértil para a construção de uma identidade nacional. A memória coletiva de um país nos esportes é importante instrumento para utilização política. A partir deste contexto é necessário observar o significado de propagação, ao longo dos anos, do mito de que a seleção peruana foi vítima de uma injustiça e não se rendeu à Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Que país não gostaria de “registrar no currículo” que enfrentou a Alemanha Nazista? Especialmente após a Segunda Guerra Mundial.

Jogos Olímpicos de 1936- O esporte ao serviço da máquina de propaganda nazista

O Peru foi o único país sul-americano que disputou o torneio de futebol nas Olimpíadas de 1936. Uma das edições mais políticas da história e extensamente utilizada pela máquina de propaganda nazista. Após não ter sido disputado nos Jogos de 1932 em Los Angeles, o futebol voltava para o programa olímpico dos Jogos de Berlim. Apenas 5 das 16 equipes que disputaram a competição não eram europeias (EUA, Japão, China, Egito e Peru). Nenhuma destas parecia minimamente capaz de disputar medalhas.

O torneio era disputado em eliminatória simples. O ganhador da partida seguia adiante e o perdedor voltava pra casa. Para conquistar a medalha de ouro bastava quatro vitórias. Após vencer a Finlândia por 7×3 na primeira partida, a seleção peruana enfrentou a Áustria nas quartas de final.

Seleção Peruana de Futebol de 1936

PERU x ÁUSTRIA. POLÊMICO E COM DIVERSAS VERSÕES

Na década de 1930 a seleção austríaca era uma das mais fortes do mundo. Em 1934, a equipe conhecida como Wunderteam (time maravilhoso) havia sido quarta colocada na Copa do Mundo após perder para a campeã Itália na semifinal. No entanto, para os Jogos Olímpicos de 1936 o país enviou um combinado amador pois a FIFA e o COI haviam acordado que os atletas profissionais poderiam disputar somente a Copa do Mundo, transformando esta na principal competição mundial de futebol. Nenhum dos austríacos que disputou a Copa de 1934 esteve em campo nas Olimpíadas de 1936.

A seleção peruana, por sua vez, disputou a competição com sua equipe principal. O profissionalismo do futebol no Peru começou apenas em 1951 e com isso o país pode disputar a competição com um conjunto muito forte, embora considerado amador. Para efeito de comparação, o Brasil já havia profissionalizado o seu futebol em 1933.

Em 8 de agosto, a seleção peruana venceu a Áustria por 4×2 na prorrogação após estar perdendo por 2×0 no tempo normal. Durante a partida um torcedor, supostamente peruano, teria invadido o campo para agredir um jogador austríaco. Há relatos também de entrada de outros torcedores peruanos após a comemoração do gol de empate. Apesar de continuar a disputa da partida, a Áustria formalizou um protesto após a derrota.

A ausência de vídeos do jogo e a discrepância de versões (especialmente entre a peruana e a europeia) impede conclusões precisas sobre o ocorrido durante a partida. Um comitê formado apenas por europeus (entre eles o francês Jules Rimet, então presidente da FIFA) julgou o recurso e determinou a realização de uma nova partida entre Peru x Áustria no dia 10 de agosto sem a presença de público.

Vídeo em espanhol com uma extensa análise dos acontecimentos da partida entre Peru x Áustria

Inconformada com o resultado do julgamento a seleção peruana não compareceu para a repetição da partida. Com a desistência, a Áustria foi declarada ganhadora do confronto e acabaria conquistando a medalha de prata do torneio.

Os dirigentes esportivos do Peru também decidiram que todos os atletas do país, não apenas os do futebol, deveriam se retirar da competição.  Decisão acompanhada pela delegação da Colômbia e do Chile, em solidariedade aos peruanos.

A versão de que Hitler ordenou que a seleção peruana, composta por alguns jogadores negros e índios, não poderia ser campeã olímpica surgiu muito após a disputa dos Jogos de Berlim. Não há nenhuma confirmação que o governo nazista tenha interferido na decisão do Comitê, embora seja possível afirmar que não era interessante para a FIFA, majoritariamente europeia, que uma seleção da América do Sul conquistasse o ouro olímpico no futebol.

De qualquer forma, uma grande comoção foi registrada no Peru logo após a decisão da disputa de uma nova partida. O presidente Benavides repudiou o tratamento recebido pela delegação peruana na Alemanha, milhares de pessoas foram protestar na praça San Martín, um dos principais espaços públicos de Lima, e uma grande onda de nacionalismo foi registrada. Tudo em um período de grande agitação política no país.

Capa do Jornal El Comércio- Comoção Popular

O ESPORTE COMO POLÍTICA DE ESTADO PERUANA

O general Oscar Benavides assumiu a presidência do Peru em 1933 logo após o assassinato do também militar Sánchez Cerro. Com o apoio do exército e da elite econômica de Lima, Benavides representava a luta contra o comunismo, socialismo e a APRA- Aliança Popular Revolucionária Americana. A APRA foi fundada em 1924 e pregava a luta contra o imperialismo, integração de movimentos sociais e nacionalização de terras e indústrias. Conhecida como “partido do povo”, a APRA é uma força política até os dias atuais no Peru, embora sem o caráter rebelde do seu início.

Oscar Benavides

Benavides ao assumir novamente a presidência (já havia ocupado o cargo em 1914 e 1915), realizou diversas obras assistencialistas, entre elas a construção de instalações esportivas em bairros operários do país. O esporte e a educação eram vistos como importantes elementos governamentais para a criação de um vínculo com a pátria e nacionalidade. Além de também combater as ideologias socialistas e apristas.

No livro A sedução da classe trabalhadora: trabalhadores, raça e formação do estado peruano o autor Paulo Drinot analisa a política de Benevides de investimento no esporte:

“Os trabalhadores melhor preparados através da ação do Estado representariam o Peru no cenário mundial. Os que estavam sendo preparados nos bairros operários não seriam apenas melhores trabalhadores, seriam representantes do ideal da nacionalidade peruana: deviam converter-se na própria essência definitiva da nação” (Drinot, 2016, p. 194)

O historiador Jaime Pulgar resume em sua obra De golpes e goles- Os políticos e a seleção peruana de futebol (1911-1939) os objetivos dos investimentos do general Benavides no esporte:

– Um elemento que fortalecia a raça;

– Uma atividade que impunha o respeito ao princípio de autoridade e obediência;

– Apresentar o país de maneira destacada nos campeonatos esportivos;

– Aumentar o nacionalismo

– Mostrar os peruanos vitoriosos no cenário internacional

“Um povo amante do esporte é um povo destinado a ser grande, a ser forte e a sobreviver na história” (Benavides, 1939)

ELEIÇÕES PERUANAS DE 1936

No mesmo ano dos Jogos Olímpicos de Berlim foram realizadas eleições presidenciais no Peru. Entre os candidatos, Benavides apoiava a candidatura de Jorge Prado, mas também não veria com maus olhos uma vitória de Manuel Villarán, candidato apoiado pelos agricultores. No outro lado estavam os considerados adversários do atual governo: Luis Eguiguren, candidato de esquerda e Luis Flores, candidato entusiasta dos movimentos fascistas europeus.

Em meio ao processo eleitoral ocorreu o incidente peruano nas Olimpíadas. Jaime Pulgar descreve em sua já citada obra como a retirada da delegação peruana foi utilizada de forma estratégica pelo governo Benavides:

Luis Flores: gestos fascistas e camisas negras como a milícia de Mussolini

“O que precisava um regime autoritário como de Oscar R. Benavides era legitimidade e o futebol era uma boa forma para isso. Não era Benavides um político que utilizava a tribuna do estádio para mostrar-se e ser admirado. Muito menos foi a retirada das Olimpíadas de Berlim, em 1936, uma cortina de fumaça para fazer esquecer a população de alguma repressão ou descontentamento por alguma situação. O que se sugere é que a retirada dos Jogos Olímpicos não estava prevista de antemão, mas que serviu para o regime de Benavides para vender uma ideia de nacionalismo no momento em que mais precisava: quando estava a ponto de realizar as eleições gerais e o que se discutia eram as proposta, nacionalistas ou não, dos adversários. A direita, e sobretudo Jorge Prado- deveria aparecer como defensor do nacionalismo, e os opositores como o contrário.

Entre os adversários, Eguiguren deveria ser retratado como “um fantoche das esquerdas” e Luis Flores devia representar o fascismo. A Alemanha nazista era governada por Adolf Hitler, que pode ser considerada parte do movimento fascista, de um fascismo extremo. O que serviu muito bem a Benavides. Quando protestou contra o atropelo que se havia cometido contra a equipe peruana de futebol em Berlim, ele se mostrou um duro opositor de Hitler, alinhado com os interesses americanos, além de que mostrava que regimes como o de Hitler ou como o de Mussolini eram estrangeiros e, portanto, completamente antinacionalistas no Peru.

Assim, Benavides aparecia como nacionalista e antifascista, o que iria com seus interesses de apoiar a candidatura de Jorge Prado ou, na pior das hipóteses, a de Manual Villarán e de atacar o antinacionalista Eguiguren e o fascista Flores.”

A estratégia de Benavides não deu certo. Em 11 de outubro de 1936 (dois meses após a partida entre Peru e Áustria), Eguiguren ganhou a eleição com 37% dos votos. Luis Flores acabou em segundo lugar e o governista Jorge Prado em um vexatório terceiro lugar.

Benavides não aceitou o resultado das eleições e continuou no poder até 1939, quando transmitiu o cargo para Manuel Prado, irmão do derrotado Jorge Prado. Um novo golpe para não entregar o poder. Manobra realizada com o apoio das elites.

“A medida que os setores populares começam a ganhar autonomia, as elites deixam de lado a vocação de modernidade e abertura à mudança, e mostram então comportamento diferente, muitas vezes violento e reacionário: fechamento do espaço democrático, imposição de ditaduras” (Portocarrero, 2007, p. 373)

Parece atual, não? E olha que nem existia Whatsapp em 1936.