O Vitória de 1993 e a geladeira da mãe de Alex Alves

“As estrelas do Vitória ainda não estão bem de vida. Carro próprio nem pensar. Dependem de carona ou da Kombi do clube para trabalhar. A folha de pagamento do time corresponde ao salário do atacante Edmundo do Palmeiras. O garoto Paulo Isidoro ganha dois salários mínimos por mês. Alex (Alves) ganha um pouco mais. Setenta e cinco mil cruzeiros reais. Só com os prêmios dos últimos jogos conseguiu realizar o sonho da mãe: deu a ela uma geladeira de presente.”

O texto acima transcreve parte da matéria da Rede Globo sobre o Vitória às vésperas do confronto com o Palmeiras pela final do Campeonato Brasileiro de 1993. O abismo salarial entre o time baiano e o paulista é apenas um dos aspectos do tamanho da façanha do Leão da Barra no torneio. Algo praticamente impossível para os dias atuais.

Apesar de tradicional no futebol brasileiro, a melhor classificação do Esporte Clube Vitória havia sido o 7 .º Lugar no campeonato brasileiro de 1974. Um desempenho muito distante do rival Bahia que já havia conquistado a Taça Brasil de 1958 e o Campeonato Brasileiro de 1988.

Poucos apostariam no sucesso do rubro-negro baiano. Em 1991, o clube havia sido último lugar no Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, o Vitória foi vice-campeão da Série B após perder a final para o Paraná Clube. Um grande resultado, mas os 12 primeiros colocados da série B subiram em 1992 para disputar a primeira divisão de 1993. Coisas da CBF…

O CONFUSO BRASILEIRÃO DE 1993

O certame nacional de 1993 reuniu 32 equipes (os 20 clubes da Série A de 1992 e os 12 melhores da Série B de 1993), um regulamento inédito e nunca mais repetido:

FASE 1:

-os grupos A e B reuniram 16 clubes, 8 em cada. Partidas de ida e volta entre os integrantes do mesmo grupo. Formado pelos times do Clube dos 13 e mais Sport, Guarani e Bragantino, pela posição no Brasileiro de 1992. Os três melhores de cada grupo passavam para a segunda fase. Os demais estavam eliminados.

– os grupos C e D também reuniam 16 clubes com 8 em cada grupo. Partidas de ida e volta entre os integrantes do mesmo grupo. Os dois melhores de cada grupo disputariam um playoff de classificação: 1C x 2D e 1D x2D. Os dois vencedores do playoff passavam para a segunda fase

FASE 2:

– os seis classificados dos grupos A e B e os dois classificados do playoff dos grupos C e D eram divididos em outros dois grupos com 4 clubes.

FINAL

Os vencedores dos grupos da fase 2 disputariam a final do campeonato brasileiro.

A TRAJETÓRIA DO VITÓRIA

O futuro mostrou que o Vitória era um elenco com grandes jogadores. Mas naquele distante ano de 1993 era basicamente um time de promessas da base. Quatro jogadores eram os mais conhecidos do torcedor :

– Dida: goleiro e grande revelação do clube. Jogador relativamente conhecido por ter conquistado o Campeonato Mundial de Juniores em março daquele ano. Na época ainda, não era careca e tinha um cabelo de cachinhos bem estiloso.

– João Marcelo: zagueiro campeão brasileiro pelo Bahia em 1988

– Roberto Cavalo: volante campeão da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma

– Pichetti: atacante vice-campeão brasileiro pelo Botafogo em 1992

Alguns atletas da base surgiram no cenário nacional neste Brasileiro de 1993. Entre eles estavam o lateral-direito Rodrigo e os atacantes Paulo Isidoro e Alex Alves. Vampeta estava no elenco, mas não era titular e pouco jogou. O técnico era Fito Neves, treinador com passagens por equipes pequenas e médias do futebol nacional. Parecia pouco até para passar da primeira fase.

LÍDER NA PRIMEIRA FASE E A REVANCHE CONTRA O PARANÁ CLUBE

Elenco: Em pé: Rômulo, Renato Martins, Flávio, João Marcelo, Dida, Evendro, Agnaldo e Fito Neves (técnico); Fila do Meio: Éverton, Rodrigo, Betinho, Vampeta, Dourado, Giuliano e Gil Sergipano; Sentados: Gerônimo, Gil Baiano, Claudinho, Dão, Alex Alves, Paulo Isidoro, Wilton, Fabinho e Pichetti (imagem: Guia do Brasileirão 1993- Revista Placar)

Começa o campeonato e o Vitória está no grupo C junto com Remo, Paysandu, Náutico, Ceará, Santa Cruz, Goiás e Fortaleza. A equipe apresentou bom futebol e terminou na primeira colocação com 9 vitórias, 2 empates e 3 derrotas.

Com o desempenho, o Leão da Barra enfrentou o Paraná Clube (2º colocado do grupo D) para decidir quem passaria para a fase seguinte. O confronto que havia sido a final da série B do ano anterior foi equilibrado. Após dois empates (1×1 em Curitiba e 0x0 em Salvador), a equipe baiana se classificou para a segunda fase.

QUADRANGULAR SEMIFINAL: COMEÇO ARRASADOR, GOLAÇO DE ALEX ALVES E SOFRIMENTO ATÉ O FINAL

O Vitória enfrentaria Flamengo, Santos e Corinthians em seu grupo. No outro quadrangular estavam Palmeiras, São Paulo, Guarani e Remo. Os vencedores de cada grupo estariam na final. Logo nas primeiras rodadas, o Vitória pegou duas pedreiras: Flamengo e Corinthians. O consolo era que pelo menos as partidas seriam na Fonte Nova.

O Leão da Barra mostrou sua força na partida contra o Flamengo. Mesmo atuando contra jogadores como Gilmar Rinaldi, Junior Baiano, Marcelinho Carioca, Renato Gaúcho e Casagrande, a jovem equipe baiana venceu a partida por 1×0. Renato Gaúcho cometeu um pênalti sobre Pichetti e Roberto Cavalo converteu a cobrança. Já dava para sonhar.

A partida seguinte contra o Corinthians foi o momento em que o Brasil conheceu a força do Vitória. O Timão estava invicto no campeonato, havia vencido por 3×2 o Santos na primeira rodada na segunda fase e, mesmo jogando fora de casa, era considerado favorito em Salvador.

Apesar de melhor do que o Corinthians no primeiro tempo, o Vitória só conseguiu seu gol aos 44 minutos da etapa inicial em um lance de raça e oportunismo do atacante Claudinho. No segundo tempo os corintianos tentaram o empate com muita raça e pouca inspiração. Os baianos se defendiam como podiam até que Alex Alves recuperou uma bola do campo de defesa do Vitória e arrancou para fazer um gol antológico. Driblou quem apareceu pela frente e fuzilou na saída do goleiro Ronaldo. Golaço! A massa no estádio delira. O narrador Sílvio Luiz da Rede Bandeirantes descreve o lance para todo o país:

“E agora? Levou vantagem o Alex. Levou vantagem o Alex. Clareou do lado de cá. Se clarear do lado de cá complica. Olhooo no Lanceeeee…. Éééééééééééééééééééééééééééééééé do Vitória. E foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi ele: Alex, o craque da camisa número 7. Quando eram jogados redondos 24 minutos do segundo tempo em Salvador. Confira comigo no replay. Ela foi lá. Balançou o capim no fundo do gol do Ronaldo. E o placar na Fonte Nova marca Vitória dois, Corinthians zero. Ô Gilson Ribeiro. O que é que só você viu?”

Vitória derruba o invicto Corinthians com golaço de Alex Alves.

O Corinthians ainda descontou nos minutos finais, mas não conseguiu o empate. Final de jogo: Vitória 2×1 Corinthians. Foi a primeira e única derrota do Timão no campeonato. Perdeu menos até que o campeão Palmeiras que teve duas derrotas. Mas sofreu um tropeço que custou muito caro.

Na sequência do quadrangular o Vitória começa a tropeçar e não consegue se afastar dos rivais. Empata duas vezes com o Santos em partidas em que estava vencendo: 3×3 em São Paulo após estar ganhando por 3×1 e cede o empate por 2×2 em Salvador após abrir 2×0. Os jovens pareciam estar sentindo a pressão. E havia pela frente o Corinthians querendo revanche no Morumbi.

O jogo entre Corinthians x Vitória valia pela penúltima rodada do quadrangular. Ainda na liderança, a equipe baiana somava 6 pontos (2 vitórias e 2 empates- a vitória valia 2 pontos) e o Corinthians registrava 4 pontos (1 vitória, 2 empates e 1 derrota). Caso os paulistas ganhassem a partida, a vaga na final seria disputada na última rodada com os times empatados. O Vitória enfrentaria o Flamengo no Maracanã e o Timão buscaria a vaga contra o Santos no Morumbi.

Diante de 50 mil torcedores fiéis, o Vitória não se intimidou. Com sete minutos de jogo Roberto Cavalo de falta abriu o placar após uma falha incrível do goleiro Ronaldo. A falta era em dois lances e Ronaldo colocou a mão na bola em uma cobrança que foi direta. Se não tivesse encostado o gol seria irregular. Três minutos depois Pichetti fez o segundo gol do Vitória. Parecia que novamente os baianos levariam a melhor e até mais fácil do que da primeira vez. Ilusão.

Roberto Cavalo fez gols importantes de falta

O Corinthians descontou com Rivaldo aos 41 minutos do primeiro tempo e teria toda a etapa final para empatar e conquistar a tão necessária vitória. O empate veio com o zagueiro Henrique aos 12 minutos do segundo tempo e a virada parecia questão de tempo. Para piorar cinco minutos depois o Vitória ficou com um jogador a menos com a expulsão de Renato Martins. Era exigir demais da jovem equipe rubro-negra segurar tamanha pressão. Sabe-se lá como o Vitória resistiu e conquistou o tão importante ponto. Poucas vezes o clube foi tão leão como naquela tarde de domingo de 1993.

Corinthians 2×2 Vitória. Um Leão para conquistar o precioso ponto

Apesar do importante resultado, o Vitória ainda não havia garantido lugar na final. A equipe ainda precisaria de um empate contra o eliminado Flamengo. Caso perdesse, precisaria torcer para que o Corinthians não vencesse sua partida contra o também eliminado Santos. Faltava pouco, mas não estava lá. Um diretor do Corinthians até viajou ao Rio de Janeiro para oferecer uma mala branca aos jogadores do Flamengo para que vencessem a partida. Valia tudo pela final.

Em um Maracanã vazio, o Vitória novamente começa muito bem e faz 1×0 com outra cobrança de falta de Roberto Cavalo. Mas sem muita pressão os jogadores do Flamengo querem deixar uma última boa impressão no ano ou pelo menos garantir uma ceia de natal mais gorda com o incentivo oferecido pela direção corintiana. Criam diversas chances e empatam com Renato Gaúcho ainda no primeiro tempo.

O segundo tempo é aberto com chances para os dois lados. Mas os orixás estavam com o Vitória. A equipe segura outro valente empate e se classifica para a final do Campeonato Brasileiro. O Corinthians chegou a virar a sua partida contra o Santos nos cinco minutos finais. Uma vitória inútil. A vaga foi levada para Salvador. Uma conquista extraída a fórceps de um grupo com muito talento, entrega e uma pitada de sorte nos momentos decisivos.

A FINAL

Não foi daquela vez que o Vitória finalmente realizou o sonho de um título nacional. Contra o milionário Palmeiras, a força do investimento da Parmalat falou mais alto. O Vitória acabou perdendo suas duas partidas da final: 0x1 em Salvador e 0x2 em São Paulo.

Faltou o título. Ficou o orgulho.

Apesar da tristeza da derrota, nada diminui o feito de um grupo de origem humilde, com salários baixos e sequer carro próprio. Faltou pouco para conquistarem a taça, mas conseguiram a admiração de todo um país, o orgulho de sua torcida e a geladeira na cozinha da mãe do Alex Alves. Não é pouco. Axé, Vitória!

Bom baiano e bom filho.