Ernst Jean-Joseph e as marcas da Copa pelo Haiti

Estádio Olímpico de Berlim, Alemanha, 15 de junho de 1974. Itália e Haiti se enfrentam pela primeira fase da Copa do Mundo. Estreia dos caribenhos em Mundiais e diante da atual vice-campeã, do lendário goleiro Dino Zoff e do craque Gianni Rivera. Um momento precioso para os jogadores da antiga Pérola das Antilhas. Para um deles, porém, bastaram pouco mais de 90 minutos para o céu dar lugar ao inferno. Aquele jogo deixaria marcas para sempre na vida do defensor haitiano Ernst Jean-Joseph.  

A história de Jean-Joseph começa  em 11 de junho de 1948, na segunda maior haitiana, Cap Haitien, data e local de seu nascimento. Negro como 95% da população e com uma cabeleira ruiva, se destacava dos demais. E isso não por seu fenótipo, mas pelo que fazia com uma bola nos pés e na cabeça. Um diferencial em um país de pouquíssima tradição no futebol. 

Jean-Joseph
Fonte: reprodução

Aos 21 anos, jogava no Violette, de Porto Príncipe, o 2º clube mais tradicional do país. Esguio, com 1,85m de altura, era forte no jogo aéreo. Usava muito a cabeça como arma para superar as adversidades e tentar vencer, quase uma metáfora da vida extracampo haitiana. 

Jogando no meio-campo e de líbero, foi incorporado à seleção nacional em 1972, para a disputa das eliminatórias da Concacaf. O objetivo era se classificar para a Copa do Mundo de 1974, algo inédito. Enquanto Ernst se enchia de orgulho e esperança de fazer bonito nos gramados, o país era alimentado por um caos interminável. 

Primeira nação negra independente do mundo, em 1º de janeiro de 1804, pioneiro na adoção do sistema Republicano de governo e com abundância de recursos naturais, como bauxita, cobre e ouro, a antiga Pérola da colônia francesa tem uma história marcada por séculos de exploração, governos déspotas, crises socioeconômicas, intervenções externas e desordem. Um arquétipo de disputa e manutenção do poder através da força, como conta o livro “Haiti: a soberania dos ditadores”, de Ricardo Seitenfus. 

Um ano antes de Ernst dar o pontapé inicial em sua trajetória na seleção nacional, quem começava a ditar as regras do jogo no país era alguém com sobrenome bastante conhecido dos haitianos: Jean Claude Duvalier, o “Baby Doc”. Ele tinha apenas 19 anos quando foi alçado ao poder em uma das últimas ações déspotas de seu pai, o ditador François Duvalier – que forçou o Legislativo a baixar de 40 para 18 anos o limite legal para assumir a Presidência.O pai morreria em abril de 1971, deixando o caminho livre ao filho. Era a continuação da Era Duvalier, um dos regimes mais violentos do século 20. 

Em meio a esse cenário de autoritarismo e barbárie, ainda restava o futebol, que insurgia como um raro momento de alegria social. Nas eliminatórias para a Copa na Alemanha o Haiti elimina Porto Rico na primeira fase e vence o hexagonal decisivo, deixando para trás México, Guatemala e Antilhas Holandesas.  No jogo decisivo diante de Trinidad & Tobago, o árbitro salvadorenho José Enriquez anulou cinco gols do time adversário e deixou de anotar dois pênaltis claros. Conforme relata Edgardo Martolio no livro Glória Roubada: O outro lado das Copas, reza a lenda que o juiz não fora comprado, mas sim ameaçado de morte por Baby Doc. Enriquez não apitaria mais, mas mesmo assim o resultado é mantido e o Haiti se classifica para o Mundial.  

Na Alemanha, quis o destino que eles caíssem em um grupo com nada menos que a Itália, a talentosa Polônia e a tradicional Argentina. Mas nem o revés do sorteio parecia tirar a alegria de Ernst e de seus companheiros de equipe. Eles estavam na Copa, um feito inédito para o país. 

Antes do embarque à Europa, os atletas foram recebidos por Baby Doc na residência oficial. Em meio aos afagos e aos votos de boa sorte aos jogadores, o governante exalta o nome de Joe Gaetjens, o haitiano estudante de contabilidade na Universidade de Columbia e lavador de pratos que defendeu a seleção dos Estados Unidos na Copa de 50. Foi dele o gol da vitória americana de 1×0 contra a Inglaterra, considerada uma das maiores zebras dos Mundiais. 

A lembrança causou estranheza nos atletas, não pelo feito, mas pelo destino de Gaetjens. Nascido em uma família influente, o ex-jogador dos Estados Unidos fazia questão de expor suas críticas ao regime de Papa Doc. Nascido em uma família influente no país, viu seus irmãos se exilarem no exterior. Optou em voltar à terra natal e permanecer em Porto Príncipe. Acabou pagando um preço muito alto por isso. Foi preso em julho de 1964 pelos Tontons Macoutes, o temido grupo paramilitar da ditadura, e nunca mais foi visto. Nenhum dos jogadores da seleção pretendiam ter o mesmo fim. Ernst Jean Joseph, porém, conheceria de perto a fama da milícia de Duvalier.

Itália x Haiti: da alegria ao horror

A estreia dos haitianos diante da Azzurra é uma dessas muitas histórias que só o futebol é capaz de contar. De um lado, uma superpotência bicampeã do mundo, comandada por Dino Zoff e o craque Gianni Rivera. Do outro, um estreante em Copas, sem nenhuma tradição no esporte. Com a bola rolando e 11 em campo de cada lado, a estatística por um bom tempo foi deixada de lado.

Após um primeiro tempo sem gols, viria a grande surpresa. O público no estádio de Berlim ficou perplexo quando, a 1 minuto da etapa final, o atacante Emmanuel Sanon recebe um lançamento de trás do meio campo, dribla Zoff e abre o placar. Estava quebrada ali uma invencibilidade de 1.143 minutos do goleiro da Azzurra e da Juventus. Empurrados pela torcida, os italianos reagiram e viraram o jogo, com gols de Rivera, Benetti e Anastasi. Os haitianos perderam a partida por 3×1, mas tinham ganhado o respeito do mundo do futebol. 

Jean-Joseph derruba Fábio Capello no jogo entre Itália e Haiti
Fonte: Wikimedia

Após o jogo, Sanon – o autor do gol – e Ernst Jean-Joseph são sorteados para o exame anti-doping. Na urina do defensor, foi detectada a presença de efedrina, uma substância proibida. Ele tentou se explicar: eram os medicamentos que tomava para conter suas muitas crises de asma. Não teve a complacência nem mesmo do médico da delegação, que o acusou de não ser “suficientemente inteligente”. Expulso do torneio, o jogador se converteu no primeiro caso de doping da história das Copas e a vida dele nunca mais seria a mesma desde então.

No dia seguinte, o hotel da seleção é cercado por jornalistas e uma coletiva com o médico é convocada. A imprensa não ouviria a versão do jogador. A mando de Baby Doc, Jean-Joseph foi retirado à força pelos Tontons Macoutes e espancado a caminho do aeroporto. “Quero que chegue ao Haiti vivo, mas desfigurado, irreconhecível”, teria dito o ditador. Para ele, não eram as dezenas de milhares de assassinato de seu grupo paramilitar ou a barbárie de seu regime que manchavam a imagem do Haiti no mundo, mas sim o doping do atleta. 

“Eu me recordo do olhar de veneno de um funcionário que antes era todo sorrisos”, contaria mais tarde o zagueiro Fritz Plantin a Jon Spurling, autor do livro Death or Glory: the dark story of the world cup. “Como jogadores de sucesso, fomos protegidos desse lado do regime, mas agora vimos o lado sombrio. Tivemos uma noite sem dormir antes do jogo contra a Polônia e, para ser sincero, só pensava em Ernst, não no jogo”. 

Abalados com o que havia acontecido, os haitianos foram presa fácil para a Polônia no segundo jogo (7×0).  De volta a Porto Príncipe, preso e constantemente espancado pela milícia da ditadura, Jean-Joseph foi obrigado a entrar em contato com seus colegas de equipe, para terem certeza de que ele ainda estava vivo. Na terceira e última partida, nova derrota, desta vez para a Argentina, mas pelo mesmo placar da estreia contra a Azzurra (3×1). 

Tratado como um criminoso, Ernst foi acusado de “ter desonrado o país e, principalmente, o seu líder”. Levado a julgamento, foi condenado a dois anos de prisão em um campo de concentração. Segundo muitos relatos divulgados pela imprensa, mesmo preso, foi torturado várias vezes. 

Dois anos e meio após a condenação, Ernst ganhou a liberdade, recuperou a forma física e voltou a atuar pelo Violettes e mais tarde no Sting, da Liga de futebol dos Estados Unidos. Jogaria ainda as eliminatórias da Copa de 78 com a seleção e encerrou a carreira novamente no Violettes, onde se tornou técnico. No fundo, ele mesmo acreditou na ideia de havia prejudicado seu país. Talvez por isso, sempre guardou silêncio sobre os dias de horror que viveu sob as mãos da milícia.  

Em 1986, um golpe de Estado obriga Baby Doc a se exilar na França e põe fim à Era Duvalier. Violência, miséria, instabilidade social e crises econômicas são legados desse tempo sombrio. Décadas se passaram e a antiga Pérola das Antilhas ainda tenta deixar para trás suas feridas e seguir em frente. Ernst Jean-Joseph também.