Gérson da Silva e a Copa do Brasil de 1992

O torcedor do Internacional é um felizardo. Poucos clubes no mundo têm a honra de terem ídolos como Falcão, Figueroa, Tesourinha, Fernandão e tantos outros. As margens do Guaíba já presenciaram futebol de melhor qualidade.

Acontece que nem só de bons momentos vivem os times grandes. Tem épocas em que a sorte o abandona e o detalhe começa a jogar contra. A bola bate na trave e sai, o craque se machuca, a taça que parecia certa escapa das mãos, etc.

Para o Internacional, esse tempo de mau agouro começou após o título brasileiro de 1979. O colorado continuava a realizar boas campanhas, mas sempre perdia o time em momentos decisivos. Foi assim na final da Libertadores de 1980 perdida para o Nacional do Uruguai, os vice-campeonatos nacionais de 1987 e 1988 e a semifinal da Libertadores de 1989 em que o Inter foi eliminado pelo Olímpia em casa nos pênaltis após vencer a partida de ida no Paraguai.

Chegaram os anos 90 e o Internacional passou por um susto grande: quase foi rebaixado no campeonato brasileiro de 1990. O clube só escapou do descenso com vitórias nas rodadas finais contra a Portuguesa e o Corinthians. Um grande alívio, mas os feitos pareceriam cada vez menos relevantes.

Em 1992, o Internacional montou um time esforçado, mas sem tanto talento. O Brasileirão daquele ano foi disputado no primeiro semestre e o colorado ficou apenas em décimo lugar e fora da segunda fase em que passavam os oito melhores. No segundo semestre o clube teria o campeonato gaúcho e a Copa do Brasil para disputar. E aí brilhou a estrela de Gérson. Mesmo com todos os obstáculos que apareceram pelo seu caminho.

UM BIGODE ARTILHEIRO

Nascido em Santos, Gérson da Silva era o típico centroavante. Não era craque, mas entendia da matéria de fazer gols. Esguio, com canela fina e um vistoso bigode, o atleta passou pelo Santos, Guarani e Paulista de Jundiaí até chegar em 1988 ao Atlético Mineiro e virar ídolo. No Galo conquistou os títulos mineiro de 1989 e 1991 e foi artilheiro da Copa do Brasil nas edições dos mesmos anos. Em 1985, ele ainda foi campeão mundial sub-20  pela Seleção Brasileira. Um importante jogador do futebol brasileiro.

No início de 1992 Gérson chegou ao Beira-Rio junto com o companheiro atleticano Marquinhos. Após um início promissor, o jogador foi afastado do elenco em abril após um exame de sangue do atleta detectar uma doença. Posteriormente, o diretor de futebol do Inter, Romeu Masiero, revelou para a imprensa que o Gérson estava com Aids. Informação depois negada pelo dirigente, mas aí o tumulto já estava formado.

O FANTASMA DA AIDS

Poucos meses antes, em outubro de 1991, o jogador de basquete Magic Johnson chocou o mundo ao divulgar que era portador do vírus HIV. A doença era um tabu e praticamente uma sentença de morte. Admitir ter a doença também significava ser vítima de preconceito em uma época de muita desinformação e métodos agressivos (e pouco eficazes) de tratamento.

Logo que surgiu a notícia, Gérson negou a informação. O jogador afirmou estar com caxumba e que logo voltaria aos gramados. E foi o que aconteceu. Após uma conversa com o treinador Antônio Lopes, Gérson foi reintegrado ao elenco para disputar as últimas rodadas do Brasileiro e as competições do segundo semestre.

A COPA DE GÉRSON

Gato Fernandez, Célio Silva, Márcio Bittencourt, Caíco, Silas e Maurício foram importantes jogadores no Internacional que conquistou a Copa do Brasil de 1992. Mas nenhum deles teve a importância de Gérson naquela campanha. Mesmo com o tratamento contra a doença, o atleta fez 9 gols em 10 jogos na competição. Artilheiro da competição pela terceira vez.

O tão aguardado título nacional do Inter veio após uma sofrida partida em que o Colorado só conseguiu fazer o gol da conquista com um pênalti convertido pelo zagueiro Célio Silva aos 42 minutos do segundo tempo. Gerson não brilhou nas finais. Não importa. Nenhum jogador havia sofrido tanto como ele naquele ano. Podia não ser um Falcão, mas graças a ele o torcedor do Clube do Povo voltava a sorrir. Mesmo que somente por um breve instante.

Campanha Colorada na Copa do Brasil 1992- Fonte: Canal Gols do Inter

TRISTE FIM DE GÉRSON DA SILVA

Infelizmente a consagração também foi seu último momento de glória. O atleta que terminou 1992 pedindo uma chance na seleção brasileira de Parreira já não conseguia repetir as atuações no início do ano seguinte. Fragilizado pelo tratamento contra a Aids, não era mais possível esconder o inevitável: Gérson não tinha mais condições de jogar profissionalmente.

Após receber passe livre do Internacional, Gérson voltou com a família para o litoral paulista e em março de 1994 foi internado com toxoplasmose. O Santos chegou a realizar uma partida beneficente com renda revertida para Gerson. Mas já era tarde. Gérson morreu em 17 de maio de 1994.

ÍDOLO PARA SEMPRE

Após o título da Copa do Brasil de 1992, o Internacional voltou a dar poucas alegrias ao seu torcedor. Somente a partir de 2005 o clube voltou para a cena de vitórias digna de sua história. História em que sempre estará Gerson da Silva. Herói de tempos difíceis. Não importa se era soropositivo ou não. A grandeza estava no seu caráter e não no seu sangue.

CAMPANHA COPA DO BRASIL 1992 / GOLS DO GÉRSON

(Primeira Fase)

Muniz Freire 1×3 Internacional (1 gol)

Internacional 5×0 Muniz Freire (2 gols)

(Oitavas de Final)

Corinthians 0x4 Internacional (2 gols)

Internacional 0x0 Corinthians

(Quartas de Final)

Grêmio 1×1 Internacional (1 gol)

Internacional 1×1 Grêmio* (1 gol)

*Classificação nos Pênaltis

(Semifinal)

Palmeiras 0x2 Internacional (1 gol)

Internacional 2×1 Palmeiras (1 gol)

(Final)

Fluminense 2×1 Internacional

Internacional 1×0 Fluminense