Enrique Guaita: o campeão mundial que escapou de Mussolini

Roma, estádio Velho Flamino,  10 de junho de 1934. A Itália derrota a Tchecoslováquia por 2×1 e conquista sua primeira Copa do Mundo. Um título com a colaboração de talentos  vindos da América. Entre esses craques estava o argentino Enrique Guaita, autor da jogada do gol decisivo da final. Um homem que fez história nos gramados, mas que deixou a Itália para escapar de outro campo: o da Guerra.

Guaita nasceu em 10 de agosto de 1910 em um pequeno vilarejo de Entre Rios, Argentina, na divisa com o Uruguai. Filho de imigrantes italianos da região da Lombardia, foi ainda jovem para a cidade de La Plata  estudar Medicina. Pouco tempo depois desiste para seguir sua verdadeira vocação: jogar futebol. 

Em 1929, ele começa a atuar pelo Estudiantes.  Ponta velocista, com uma canhota potente e muito vigor físico, fez parte de um dos lembrados times do clube de La Plata. Com Manuel Ferreira, Alejandro Scopelli, Alberto Zozaya e Miguel Lauri, formou o ataque conhecido como “Os Professores”.  Em 1931, a equipe ficou na 3ª posição do campeonato nacional, marcando 104 gols. Naquela época, Guaita e seus colegas davam verdadeiras aulas de como balançar as redes adversárias.

Da esquerda p/ direita: Lauri, Scopelli, Zozaya, Ferreira e Guaita, “Los profesores” do Estudiantes. Crédito: Wikipedia

As lições do ex-estudante de Medicina não eram somente com as bola nos pés. Reza a lenda que em uma partida contra o San Lorenzo, ele confessou ao árbitro ter marcado com a mão, fazendo-o anular o gol. O atacante, que já carregava com orgulho o apelido de “El Indio” – devido ao tom da pele – passou então a ser reverenciado como Gentleman , cavalheiro do futebol.   Assim, os valores extracampo de Guaita iam se somando à capacidade com a bola nos pés. Jogando pelo Estudiantes, fez 33 gols em 65 jogos, desempenho que o levou à seleção argentina. Estreou no time nacional em 31 de janeiro de 1933, na derrota por 2×1 diante do Uruguai em Montevidéu. 

O destino, porém, faria com que a trajetória do jogador com a camisa albiceleste tivesse um hiato. Naquele mesmo ano, Nicolas Lombardo, um ex-meio campista argentino da Roma, indica o jovem para o time italiano. Em 19 de abril, o presidente da equipe giallorossa, Renato Sacerdoti escreve uma carta para o jornal Littoriale anunciando a contratação de Guaita. Junto dele, vieram outros dois compatriotas: Alejandro Scopelli, seu companheiro de time e Andrés Stagnaro, do Racing

Os olhares de Lombardo e Sacerdoti para a América tinham foco no talento e também eram uma brecha na legislação. Com a Carta de Viareggio – considerado o estatuto fascista do futebol – a partir de 1928 foi proibido o uso de estrangeiros no campeonato, com exceção dos filhos de italianos.  Guaita, Scopelli e Stagnaro não só se encaixavam na regra estabelecida pelo Fascismo, como também elevariam o potencial do time. Vice-campeã na temporada 30/31, a Roma buscava ser o primeiro clube do centro e sul do país a conquistar a série A e, de quebra, manter a supremacia sobre a arquirrival Lazio, time do ditador Benito Mussolini.

O corsário negro e os oriundi

No dia 1º de maio de 1933, os três argentinos são recebidos com toda pompa na estação ferroviária romana de Termini, com direito a fotógrafos e a uma multidão de torcedores. A chegada de Guaita, Scopelli e Stagnaro levou a torcida ao delírio e também despertou a fúria do Duce italiano. Segundo conta o livro Glória Roubada: o outro lado das Copas, de Edgardo Martolio, Mussolini ficou tremendamente irritado com os reforços do time da Roma. Ainda mais considerando que, dois anos antes, Guaita e Scopelli haviam dito não a Lazio. 

Inserido em uma rivalidade que até hoje transcende os limites das quatro linhas, Guaita começou a fazer aquilo que mais sabia. Estreou na vitória de 4×3 frente ao Bayern de Munique, em um jogo amistoso. Não demorou muito para os romanos perceberem o quanto haviam acertado ao contratar El Indio.

Logo em sua primeira temporada, ele fez 14 gols em 32 partidas. A Roma acabaria o campeonato no 5º lugar, 13 pontos atrás da Juventus, mas o ponta argentino chamaria a atenção no país da velha bota. Na tarde em que marcou três vezes diante da Fiorentina usando um uniforme com camisa preta, ganhou o apelido de “corsário negro”. 

Formação da Roma de 1933. Guaita é o terceiro agachado.
Crédito: Adalberto Alberti/Wikipedia

Um dos admiradores do talento do craque foi Vittorio Pozzo, técnico da seleção. Coube ao treinador convencer Mussolini e Giorgio Vaccaro – o ex-diretor da Lazio responsável pela organização da Copa de 34 – a aceitarem Guaita.  Embora reticente à ideia de ter jogadores da Roma na Azzurra, o ditador sabia que precisaria deixar a rivalidade e a ideologia de lado pensando em um ganho maior.

Com um mundial jogado em território italiano, o Duce queria mostrar ao mundo sua força e capacidade de organização. Buscava ainda legitimar seu regime autoritário junto à comunidade internacional, que questionava seus métodos – obrigar professores a usarem uniforme fascista, perseguir e mostrar a execução de opositores ideológicos e minorias são alguns deles. Para conseguir tudo isso, sediar o campeonato com sucesso não bastava. Era necessário erguer a taça. “Sua responsabilidade, Vaccaro, é o título mundial. Não sei como você vai fazer isso, mas vencer é uma ordem, não um pedido”, teria dito Mussolini ao diretor da seleção. Assim, Guaita e outros quatro atletas sul-americanos foram chamados para defender a Azzurra no Mundial: os argentinos Luis Monti, Attílio Demaría, Raimundo Orsi e o brasileiro Anfilogino Guarisi, conhecido como Filó. Eram os oriundi – nome dado aos imigrantes de ascendência nativa. 

Guaita foi titular e um dos grandes nomes da seleção italiana naquele Mundial. Foi dele o gol na vitória de 1×0 diante da Áustria, na semifinal. Na decisão contra a Tchecoslováquia, saiu do pé do argentino o passe para o tento decisivo do atacante Schiavio, já na prorrogação.  Com o talento do corsário negro, a Itália era campeã do mundo, sob o olhar de milhares de filiados do Partido Fascista e gritos de “Duce, Duce” no estádio. 

Em um país marcado por um regime totalitário, Guaita era enfático ao dizer que queria apenas jogar futebol. “Faço gols, não guerra”, falaria tempos depois à revista El Gráfico. Não foi o que pensou o ditador italiano.

Guaita marca o gol da vitória contra a Áustria

Glória giallorossa e a fuga para a Argentina 

Após a conquista do Mundial, o atacante argentino se destacaria ainda mais nos gramados italianos. Na temporada 1934/1935 marcou 28 gols em 29 jogos, até hoje um recorde em campeonatos italianos com 16 times. Com contrato renovado e salário de 10 mil liras, tornou-se o ponto forte da Roma e um incômodo cada vez maior para Mussolini. 

Culto e com ideais de esquerda, o craque não era bem a imagem de sucesso que o Duce queria ver no país. Assim, até como forma de revanche, cultivou a ideia de enviar os oriundi da Roma para a Guerra da Abissínia, na região onde se situa a Etiópia. Como conta o livro Glória Roubada,  o objetivo era claro:  ampliar o Império italiano e, ao mesmo tempo, enfraquecer a rival da Lazio, punindo o atacante esquerdista. Além dele, Scopelli e Stagnaro também seriam convocados pelo Exército: “Vão lutar pela Itália e morrer, se necessário”, dizia o líder fascista.   

Em 19 de setembro de 1935, de forma casual, o time da Roma fez uma visita ao quartel militar da Via Paolina para mostrar apoio às tropas italianas. Lá,  Guaita e os colegas argentinos descobriram o plano de Mussolini. Contrariados, tomaram um táxi direto para a casa do diretor do clube, Vicenzo Biancone, que tentou acalmá-los. “(…) fiquem tranquilos que a Itália irá vencer na Abissínia sem vocês”.  A palavra do cartola não foi o bastante e os três quiseram ir até o Consulado Argentino para ter certeza de que não corriam o risco de irem para a Guerra. Guaita, Scopelli e Stagnaro eram esperados no dia seguinte no Testaccio, o CT da Roma, o que jamais aconteceu. 

Do consulado, eles foram levados na madrugada até a França, de onde partiram de volta para a Argentina. Deixaram tudo para trás, até mesmo as famílias, pois sequer tiveram tempo de comunicá-las. O governo chegou a deter as esposas dos jogadores na fronteira, “por querer deixar a Itália com uma grande quantia de dinheiro escondida em uma pequena bolsa”.  Só foram liberadas graças ao cônsul local. As mulheres de Guaita e Scopelli – Stagnaro era solteiro – deixaram a Itália carregando apenas 2 mil liras, embora se estime que em dois anos e meio de Roma cada um dos atletas tenha recebido mais de 250 mil. 

A notícia da escapada se espalhou rapidamente e foi explorada ao máximo pela imprensa italiana alinhada ao Fascismo. “Não são traidores, são mercenários e covardes”, “não precisamos de ovelhas vestidas de leões”, era o que se lia nos jornais. O impacto imediato foi a anulação da dupla cidadania dos três por parte do governo e a proibição de entrarem novamente no país. A pedido de Mussolini, a Fifa proibiu-os de jogarem por qualquer time europeu na temporada seguinte. Quem também  sofreu foi a Roma, que naquele ano terminaria a temporada como vice-campeã, apenas 1 ponto atrás do Bologna

No regresso à Argentina, os três assinaram com o Racing.  Guaita e Scopelli ainda voltaram a jogar pela seleção albiceleste e ganharam o sul-americano de 1937. Dos oriundi romanos, apenas Scopelli pisou novamente na Europa, para atuar pelo Red Star de Paris. “Voltar a emigrar? Quem nos garantiria que isso não voltaria a acontecer em outro país, especialmente num mundo que entrava em guerras?”, justificou-se Guaita. El Indio pendurou as chuteiras em 1939, jogando pelo Estudiantes, onde tudo começou. Ele morreu jovem, aos 48 anos, e pobre, após perder o emprego de diretor da prisão de Bahía Blanca, no sul do país. Uma brilhante carreira interrompida, com um final ainda mais triste.