O futebol brasileiro precisa da Lusa

No início dos anos 1990, José Roberto da Silva Júnior, mais conhecido como Zé Roberto, era somente mais um jovem humilde e franzino da periferia de São Paulo. Sonhava em ser jogador de futebol, mas a realidade era bem menos colorida: com a morte da irmã e o abandono do pai, precisava ajudar em casa. Aos 15 anos arrumou um emprego de office boy e abandonou a ilusão futebolística. Até que um dia sua mãe inscreveu Zé para uma peneira na Lusa e foi com ele até o teste. Talvez a última chance.

“- Eu falei pra ela: poxa mãe, a gente já chegou meio-dia, abriu o portão as duas, só tomei café, tô com fome, não almocei… A senhora não acha melhor a gente ir embora? E aí ela abriu a bolsa dela e tirou um pão com mortadela e falou: Não. Se você está com fome come esse pão com mortadela, vou pegar uma água ali pra você e você vai fazer a peneira”.

Zé Roberto passou na peneira e construiu uma carreira brilhante, fruto de sua qualidade técnica, senso de profissionalismo e determinação. Mas será que o jovem da Vila Ramos, bairro da Zona Leste de São Paulo, conseguiria alcançar tantos sonhos caso não existisse uma Lusa no seu caminho?

Ze Roberto Lusa
Muitos Zés podem ser perdidos sem uma Lusa

Esqueçamos um pouco a importância da Lusa na história do futebol, embora tantos craques e esquadrões façam parte de sua trajetória, há também um papel social fundamental do clube para o Brasil. Se não é possível relevar aos montes craques como Zé Roberto, Djalma Santos, Julinho Botelho e Dener, pelo menos o clube deu rumo e perspectiva a milhares de jovens sonhadores vindos de trem de algum lugar no difícil jogo da vida. Um jogo mais complicado ainda para as classes mais baixas.

Djalma Santos Lusa
Djalma Santos- O maior lateral direito da história foi revelado na Lusa

O clube não tem culpa dos desmandos de seus dirigentes e situações obscuras de bastidores. A instituição é imaculada. Se o futebol brasileiro ousa abandonar um clube quase centenário (completará 100 anos em 2020), ele despreza a sua própria história. E isso tem efeitos gravíssimos. Não para a Lusa, mas para nós como sociedade.

Estúpidos são os que pensam que as minorias tem que se curvar às maiorias ou simplesmente desaparecer. Elas devem ser respeitadas. Não são tantos (talvez um eufemismo), mas também compartilham alguma característica em comum. Neste caso, o amor pela Associação Portuguesa de Desportos. Deixem eles comerem seus tremoços nas arquibancadas duras de concreto (antiga Ilha da Madeira) do Canindé em paz.

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Resta a esperança que esteja correta a máxima da Fernando Pessoa que diz “quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”. Quando a embarcação lusa transpor esse doloroso cabo, talvez haverá um belo céu espelhado para as almas lusitanas que se recusam a se entregar.

Lusa, viver é preciso!